“Estrelas além do Tempo” pesquisa realizada pela UFLA analisa filme e questiona o lugar da mulher negra na ciência

12 de julho de 2019

Pesquisa aponta silenciamento da voz feminina na ciência

Imagem do filme “Estrelas além do Tempo”


Uma pesquisa realizada na Universidade Federal de Lavras (UFLA) analisa o filme Estrelas além do Tempo (2017), dirigido por Theodore Melfi. O filme conta a história de três mulheres negras Dorothy Vaughan, Mary Jackson, e Katherine Johnson, que desenvolveram trabalho relacionados aos cálculos matemáticos na Nasa. A história se passa durante a Guerra Fria na década de 60, quando Estados Unidos e União Soviética (Rússia) disputavam uma corrida espacial: “Quem chegaria primeiro ao espaço?”

Por trás dos bastidores, muita coisa aconteceu. Pesquisadoras do Departamento de Estudos da Linguagem da Universidade Federal de Lavras (DEL/UFLA) retratam o silenciamento que essas três cientistas sofreram, mesmo contribuindo de modo significativo nas pesquisas espaciais que permitiram a ida do primeiro americano, Alan Shepard, ao espaço. Para analisar o filme, elas seguiram uma das linhas de pesquisa do curso de Letras nomeada de Análise do Discurso (teoria nascida na França). Para realizarem a pesquisa, selecionaram onze conjuntos de cenas, visando verificar o modo como essas mulheres se construíam discursivamente e como elas eram construídas pelo outro.

“Torna-se necessário destacar que a inserção da mulher no meio científico ainda é bastante tímida comparada a toda a história científica da humanidade. Nas últimas décadas, elas têm lutado mais para conquistar o seu espaço social como pesquisadora, reivindicando direitos iguais em todos os âmbitos sociais. Na ciência, elas já estão ocupando diferentes áreas que eram ocupadas quase que exclusivamente pelos homens”, explica a professora Márcia Fonseca Amorim (DEL).

A Nasa vivia uma situação de segregação, onde mulheres negras eram contratadas por causa da reivindicação de sindicatos dos trabalhadores negros. O local de trabalho era dividido em lado oeste (mulheres negras) e lado leste (mulheres brancas). Ao verificar como o sujeito se constitui nesse espaço, é preciso destacar a desigualdade de oportunidade entre negros e brancos, homens e mulheres.

Assim, ao analisar discursivamente o filme Estrelas Além do Tempo, as pesquisadoras estabelecem um contraponto entre o olhar da mulher negra sobre si mesma e o olhar da sociedade local sobre ela, principalmente no que se refere às contribuições feitas às pesquisas espaciais. “Identificou-se que as mulheres negras não eram bem-vindas neste espaço, pois o ethos discursivo (imagem que elas construíam de si mesmas), apresentado por elas, não era validado pelo público (mulheres e homens brancos), somente as enxergavam a partir da cor da pele delas”, explica a estudante Miriã Alexandre de Paula (DEL).

O resultado da pesquisa aponta que, para o lançamento do homem no espaço, foi preciso haver renúncia dos homens e mulheres brancos com relação às mulheres negras. Isto desencadeou uma luta dividida em: gênero (luta contra uma sociedade patriarcal), e racial (derrubar o discurso apelativo em torno da cor de sua pele). Essa luta foi necessária para que essas mulheres pudessem legitimar o discurso defendido por elas, ou seja, para que pudessem demonstrar os seus saberes matemáticos, não apenas calcular e assinar os nomes dos engenheiros e depois serem impedidas de ter acesso a informações das pesquisas e até mesmo de participar em reuniões e sustentar as suas falas.

Silenciamento

Por serem mulheres, elas eram colocadas em um patamar de inferioridade em relação aos homens que trabalhavam e tinham a mesma formação. Porém, um fator as colocava em uma situação mais subalterna, a cor de sua pele – ser mulher e negra fazia com que elas fossem silenciadas pelos outros (mulheres e homens brancos) com os quais elas dividiam espaço. A história desse filme poderia ser apenas uma ficção, mas a história de Dorothy, Mary e Katherine é baseada em uma história real e retratada no livro “Estrelas além do tempo”, escrito por Margot Lee Shetterly.

A pesquisadora explica que a escolha em analisar esse filme foi devido ao fato de as protagonistas serem três mulheres negras e cientistas (matemáticas) – a questão racial e científica chamou muito a sua atenção.  E, também, por ela cursar uma graduação com dupla habilitação (Português e Inglês), fez com que unisse as duas temáticas, trazendo um acontecimento internacional para o seu trabalho. “As questões trazidas no interior do filme são reais, porque a mulher negra, na ciência, ainda é apagada e silenciada. O modo como ela é tratada deixa explícito que a ciência é o seu “não lugar”, destaca a estudante.

A estudante questiona que, se a ciência é o “não lugar” da mulher negra, então qual é o lugar que ela deveria ocupar? É preciso (re)pensar a ausência da mulher em determinados espaços, e mais ainda da mulher negra que historicamente é apagada e silenciada em várias esferas sociais, pois a partir do momento que essas mulheres são apagadas e silenciadas, ou seja, a história dos seus grandes feitos deixa de ser registrada, elas deixam de existir.

da redação A Gazeta:

Para quem ainda não assistiu, esta aí uma ótima opção para seu fim de semana, basta procurar em várias plataformas e curtir um ótimo filme, além de ser uma ótima oportunidade de reflexão sobre os acontecimentos passados e os dias de hoje.