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Cada dia a mais, é um dia a menos!!! (Sexta parte)

(O episódio da mulher congolesa, agricultora familiar)

Cada dia a mais, é um dia a menos!!! (Sexta parte)
(O episódio da mulher congolesa, agricultora familiar)

Lembro-lhes de que encerramos o quinto post, assim:
“E o professor que coordenava isso tudo estava logo ali, bem pertinho dela.

-Ah!! pensou, eu tenho que conhecê-lo e levá-lo para conhecer pessoalmente a minha comunidade. Ele precisa ver o resultado do aprendizado em Agroecologia. Eu tenho um presente para ele!!

Disseram-me que ela chegou no local, com o sol nascente. Postou-se embaixo de uma árvore frondosa, e não saiu mais de lá, o dia todo

O dia todinho me esperando!!! Não aceitou alimentos e só bebeu um pouco de água, mas sem jamais sair do local. Almas solidárias fizeram isso. Que Deus as abençoe ricamente…!!!

Disseram que ela tinha medo de sair do local e nos desencontrarmos.
Mas eu estava em outra área e sequer sabia dela.

E ninguém tinha me avisado desta situação. E era muito tarde. Eu queria ir embora. E ela ficou sabendo que eu estava indo embora.

 Então, com medo de sair do local, mas querendo chamar minha atenção, desencadeou uma gritaria em linguajar lingala (idioma vernacular africano) Impressionante!!!

E não é que eu a ouvi…!!! Sim, eu ouvi a gritaria dela…!!!
Gratidão Senhor!!!!, por eu a ouvir, mesmo estando um pouco longe e a gente não poder se ver diretamente”. 

Continuando a temática. 

Para não repetir o que foi relatado nos posts anteriores, creio ser prático descrever o encontro com Nathalie, a mulher congolesa, agricultora familiar e líder comunitária, que queria ver e falar com o professor que veio do Brasil. 

Sai da van, percorri a trilha e dobrei a curvinha, acompanhado de todos os membros da delegação. E lá estava ela, agitadíssima, bem debaixo da árvore, e tão logo me viu, voou no meu “cangote”.                                                 

Abraçou-me fortemente e destampou a falar em lingala……sem parar….ansiosamente….voz fina e estridente….zunia…

Conseguimos acalmá-la e delicadamente desvencilhei-me do abraço. Mas ela agarrou meu braço esquerdo com as duas mãos e não largou mais.

Iniciou-se o processo de tradução: lingala-francês-português. 

Eu sou Nathalie (não lembro o sobrenome), líder da comunidade de… (não me lembro o nome), a uns 20Km daqui.

Minha comunidade é muito pobre e nós plantamos pequenas lavouras para sobreviver. (é o que tenho visto na RDC: muita, muita pobreza, mas muita simpatia e dignidade também). 

É tudo muito difícil e não temos dinheiro para nada, principalmente para comprarmos sementes, adubos, defensivos e ferramentas.

Nossas colheitas são pequenas e mal dão para nosso sustento, mas é o que temos. 

(Em tempo: Segundo a ONU, esta é a situação de milhões de agricultores familiares ao redor do mundo, e não somente na RDC)

_Em 2014, a ONU decretou o “Ano Internacional da Agricultura Familiar”, para destacar e reconhecer esse importante segmento produtivo de alimentos básicos e fundamentais, no mundo.

_Mas antes, em 2013, o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), sob a orientação da alta administração do Centro de Monitoramento da Conservação Mundial do Pnuma (Unep-WCMC), declararam em publicação oficial:

1) Os pequenos produtores são uma parte vital da comunidade agrícola global, mas muitas vezes são negligenciados;

2) Os pequenos produtores administram mais de 80% dos estimados 500 milhões de pequenas propriedades no planeta e fornecem mais de 80% dos alimentos consumidos em grande parte do mundo em desenvolvimento, contribuindo significativamente para a segurança alimentar e redução da pobreza.

No entanto, os pequenos agricultores, muitas vezes, vivem em locais remotos e ambientalmente frágeis, e muitas vezes, fazem parte de populações marginalizadas e desprivilegiadas;

3) A produtividade dos pequenos produtores, em particular, depende do bom funcionamento dos ecossistemas;

4) O crescimento da produção agrícola para atender às crescentes necessidades globais de alimentos, usando-se as práticas agrícolas predominantes é insustentável, e é necessária uma transformação.

5) Conclusão da ONU: Com as condições certas, os pequenos produtores podem estar na vanguarda de uma transformação na agricultura mundial. 

E Nathalie continuou o relato:

-Um dia eu estava voltando para casa, e ao passar por aqui, fiquei sabendo que haveria um dia de campo neste local, promovido por professores da UniKch, que tinham estado no Brasil aprendendo sobre Agroecologia. 

-Porém como eu não fui convidada para participar do treinamento, mas muito interessada no assunto, no dia aprazado, revolvi vir e ficar à margem do evento, porém numa posição estratégica, em que me era possível ver e principalmente ouvir tudo sobre a capacitação em curso. E assim, fiz!!!

(Incrível!!. Fantástico!! Magnífico!! Maravilhoso!!)

-E assim, captei perfeitamente, todas as lições repassadas, e decidi aplicar imediatamente as novidades, na minha própria comunidade, um pouco distante daqui, mas que também é de agricultores familiares, onde lutamos bravamente para garantir a nossa própria subsistência. 

-Produzi na minha casa, a primeira amostra de Biofertilizante, para ensinar todas as famílias comunitárias a produzir também, e todos passaram a aplicar a novidade vinda do Brasil/UFLA. 

-Logo nas primeiras colheitas, colhemos muito, muito mais do que o habituall!!! e com melhor qualidade!!!

(Magnífico: Ela tinha entendido subliminarmente, mas perfeitamente, a nossa “Metodologia de UEP-Unidade Experimental Participativa”).

-Não só os alimentos básicos, mas também as hortaliças e frutas, apresentaram colheitas em quantidades e qualidades suficientes para alimentarmos abundantemente a todos, como também com excedentes suficientes para comercializarmos nas feiras livres locais, ao nosso redor. 

-E agora, quero que o professor Gilmar do Brasil, vá à minha comunidade, para ver com os próprios olhos, o que está acontecendo lá. Todos estão esperando e preparamos um presente surpresa para ele.

-Por isso, fiquei o dia todo aqui, porque tenho a missão de lavá-lo lá.

E agora??!! Que faço eu??!! Já é tarde!! Estou mortinho de cansaço. Mais 20 Km de “estrada” de terra. Será que aguento??!! Mas olhe a carinha expectante da Nathalie. O dia todo esperando!!! 

Então decidi e comuniquei:

-Delegação que me acompanha, atenção!!! Ocupem seus lugares, porque vamos conhecer a comunidade da Nathalie. E que Deus tenha misericórdia de nós…!!! 

E fomos!! No primeiro veículo, Nathalie foi indicando o caminho. Em seguida a van cabrito com um professor brasileiro desossado (referência aos sacolejos na estrada), mas, porém, todavia e contudo, muito, muito feliz!! 

Chegamoooooooooooos!!…

Meu Deus!!…Que é isso…??!! Estarei sonhando..??!! Inacreditável, porém maravilhoso, inesquecível…!!!
Uma pequena multidão, que também esperou o dia todo…..Festaaaa….

Homens, mulheres, jovens, crianças, de todas as idades. Todos querem abraçar o professor que veio do Brasil….Que surpresa deliciosa…

Mas muito mais emoções estavam a caminho….Bate bate coração…!!! 

 

 

Continuaremos no próximo post. 

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