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I-O primeiro chuveiro a gente jamais esquece

Primeira parte

 Nesta matéria de caráter crônica saudosista, desejo escrever sobre o final da década de 50, e início da década de 60. Como se fosse uma continuação da série:

“Meu pai comprou um terreno. Nascia um agricultor familiar socioambientalista apaixonado e voluntário” (Primeira parte)
https://www.agazetadelavras.com.br/meu-pai-comprou-um-terreno-nascia-um-agricultor-familiar-socioambientalista-apaixonado-e-voluntario-primeira-parte/

Este intervalo de tempo, permitiu-me organizar as lembranças de mais alguns momentos marcantes de minha infância, lá em Porto Ferreira/SP, onde viveram e estão sepultados, todos os parentes falecidos que constituíram minha família nativa.

E os que estão vivos, até à presente data, em sua grande maioria, continuam tocando suas vidas naquele solo inesquecível, onde o refrão do hino ao município diz:
“Salve, Porto Ferreira, doce rincão que, aos filhos, traz orgulho! Bendita seja a data sobranceira, vinte e nove de julho!” 

Na minha infância, a minha rua, a rua João Procópio Sobrinho, embora no centro da cidade, era tão deserta, que me permitia brincar de qualquer coisa que quisesse, sem a mínima preocupação com o trânsito.

Eventualmente, uma bicicleta de algum funcionário da fábrica de louças, alguma charrete de aluguel, vindo da estação da Cia Paulista de Estrada de Ferro, ou da estação da paulista, como dizíamos, e raramente, o Sinca Chambord da Laurinha Salgueiro, que estacionava entre a Casa Glória do Cecílio e do João e o Banco Itaú do Seo Alceu.

Às vezes, passava o caminhão a gasolina, sei lá de quem, que ia descarregar produtos comerciais na Venda do Zé Baxo. (querosene, sal, fubá, açúcar, alpargatas rodas, fumo de corda, farinha, café em grãos crus – o torrado e moído, era bem mais caro),

A minha casa tinha como vizinhos mais próximos, nos fundos e abaixo, a Casa Glória, a campeã dos preços baixos, conforme alardeava a jovem rádio Primavera de Porto Ferreira. Os dois proprietários irmãos e sócios, Cecílio e João, eram conhecidos, respectivamente, como: “Cecílio e João da Casa Glória“.

A esposa do Cecílio era identificada como “Palmira do Cecílio“. O João, que era solteirão, tinha a função de caixa. Ele se debruçava sobre o caixa da loja, o dia todo, parecendo querer carregá-la. Era muito engraçado!!

À tarde, para trancar a loja, o Cecílio dava marretadas tão violentas nos trincos das portas, para cravá-los nos correspondentes alojamentos do chão, que ouvíamos as pancadas de longe.
Sons nítidos na minha memória, até hoje. Incrível, né??!! 

Quando pedíamos emprestado a bomba manual de encher bolas de futebol de capotão, qualquer um dos dois sempre lembrava-nos:
-Passa cuspe no bico!! senão estraga a bomba.
Era cada cusparada no tal bico. Meu Deus…!!!

A casa de meus padrinhos de batismo, D. Ruth e “Mirinho dentista“, que depois virou “Mirinho da farmácia“, assim que seu filho Carlos graduou-se farmacêutico, ficava acima.
É que o Mirinho tinha sido dentista prático, por muito tempo. 

Minha madrinha, jamais esqueceu-se da data do meu aniversário, e neste dia, eu ganhava um presente, infalivelmente. Ah!! como eu esperava este presente!!!

Quando fui aprovado no vestibular da Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo-EESC-USP, ela me deu um jogo de compassos técnicos lindíssimo, e quando me graduei Engenheiro Mecânico, ela me deu o anel de formatura. Guardo tudo com muito carinho, até hoje!! Gratidão, madrinha!!

Um pouco mais acima, morava o Toquinha (com ó bem aberto), irmão do Lemão, filhos da Carminha. O Toquinha ficava debruçado no batente inferior da janela da casa dele, o dia todo, enchendo o saco de quem passava na calçada. E tudo que um transeunte, eventualmente, carregava nas mãos, ele pedia um pedaço.

Adivinhem, se eu adorava fazer uma “sacanagenzinha“, passando por lá com uma pedra, ou um pauzinho, meio escondido nas mãos?! Às vezes, também, simulando estar mastigando alguma coisa.
Ô maldade!!

Tanto é que minha tia Hercília, sempre acusava-me de “brasa encoberta“, assim: Encurvava o corpo para frente, dedo indicador direito em riste, quase tocando minha testa, mão esquerda toda para trás, e a sonora frase: -Você ohhh!! é brasa encoberta!!
Eu??!! Será??!!

Ainda bem que ela nunca soube, que quem chutava o velho portão de zinco, entre a Casa Glória e a casa do Parada (“maestro Seo Parada“), para assustar o cachorro cão de guarda da Casa Glória, era eu.
Tadinho do cachorro chamado Tarzam, ele quase enlouquecia, com a bicuda que eu dava de surpresa no portão. E escafedia-me, rapidinho, morrendo de rir, com a panaceia caninha.

Mas era uma tentação irresistível, porque o Tarzam, invariavelmente, dormitava preguiçosamente do lado de dentro, bem encostadinho no portão.

Lá de casa, era comum ouvir a Nenrita, irmã do Cecílio e do João, dizer: -Esses muleques, não dão sussego prô Tarzam. Eu só queria saber quem são eles. O totó é tão bãozinho, não morde ninguém. Ô mulecada!!
Bem!! Nenrita e tia Hecília, agora, só no dia do juízo final!!!

Um pouquinho mais acima, morava D. Henriqueta, velhinha simpaticíssima. E parede e meia acima, morava o dono da selaria, de quem não me lembro mais o nome, pai do menino, de quem eu achava que tinha uma cara muito esquisita, e mais esquisito ainda, o seu sobrenome. Olhem só que maldade, eu considerava este menino, mais feio que um arreio estragado. Perdão…  

Por fim, a venda do Bortulim, onde o tio Tunim gostava de tomar uma pinguinha, e quando eu entrava lá, não via nada nas prateleiras, somente um garrafão de pinga no balcão. Que coisa mais estranha, cadê os doces??!!

Em frente à minha casa, do outro lado da rua, havia a agência do Banco Itaú, com a residência do gerente anexada. “Seo Alceu do Banco Itaú” e “D. Maria da frente“, a esposa, moravam lá, com dois filhos. 

Constantemente eu pedia para Seo Alceu, deixar pegar selos de correspondências do banco, descartadas no fundo do quintal para serem queimadas. Ele, com voz gravosa dizia: -Selo pode, outro papel, não!! E, bonzinho, deixava. 

Um pouco mais acima, morava a “Nair do sobrado“, ao lado da “farmácia do Galo” e do “bazar da D. Penha” e do Seo Max. Jamais consegui pronunciar o nome inteiro do Seo Max: Maximiniano. A casa da “D. Flora do Syrio“, ficava no alcance do radar.

No mês de dezembro de cada ano, eu passava horas, contemplando os brinquedos expostos no bazar, imaginando que tinham vida. Que saudades…!!!!

Por fim, a casa da Márcia (ô moça bonita, sô!!) e irmã, parede e meia com a loja de utilidades domésticas e sapataria do Arlindo Martins, onde meu primo Hilton trabalhou por muito tempo.
O Arlindo não falava “asfalto” mas sim: “asfarpi“. Curioso, né??!! 

Muitos anos mais tarde, Ruben Alves relataria em uma de suas obras literárias magistrais, o então inexplicável arrepiozinho que ele sentia, quando se aproximava de sua professora primária. Certamente o mesmo que eu sentia, quando via a Márcia de calça comprida rancheira justinha, mesmo sem me aproximar dela.

Foi da loja do Arlindo Martins que sai correndo (estava à toa sentado na soleira da porta), para atravessar a rua São Sebastião, em direção à Venda do Zé Baxo, para pegar alguma coisa que vi cair de um freguês, e fui atropelado por um caminhãozinho de aluguel 29, indo parar no consultório do Dr. Plínio, levado por pedestres que me socorreram.

Nenhum ferimento, só susto mesmo, e a história de um par de chinelos novinho, que minha mãe perdeu na rua, quando correu espavorida para o consultório do médico, ao ser avisada do acidente.

Continua no próximo post, não percam.

(Acessem as crônicas anteriores, clicando na franja “Blogs e Colunas“, acima do título da matéria atual. Em seguida, pode-se clicar na franja“Próxima página>“, no rodapé da página aberta, para continuar acessando-se mais crônicas anteriores).

 

 

 

 

 

 

 

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